segunda-feira, 11 de agosto de 2008

LINKS COM TEXTOS DO PROFESSOR VICENTE MARTINS













1 - Como garantir a liberdade de ensinar na escola - Vicente Martins

2 - Como lidar com a baixa freqüência escolar - Vicente Martins

3 - Como garantir o pluralismo de idéias pedagógicas – Pequenas Considerações - Vicente Martins

4 - Aspectos jurídico-educacionais da Constituição de 1891 - Vicente Martins

5 - Aspectos Jurídicos-Constitucionais da Carta de 1824 - Vicente Martins

6 - Como garantir a igualdade de acesso à escola - Vicente Martins

7 - A avaliação como fábrica de fracasso escolar - Vicente Martins

8 - Educação Especial Como Direito - Vicente Martins

9 - Como desenvolver a capacidade de aprender - Entrevista Vicente Martins

10 - Dislexia e mau leitor: As diferenças - Vicente Martins

11 - Para uma postulação do direito de colar - Vicente Martins

12 - Como atuar nas dificuldades de acesso ao código escrito - Vicente Martins

13 - Encontro com os poetas da Geração de 45 - Vicente Martins

14 - Por que ensinar a ler é tão difícil? - Vicente Martins

15 - Lectoescrita, informática e os lingüistas do Século XXI - Vicente Martins

16 - O pensamento de Skinner sobre a Aquisição da Linguagem - Kétilla Maria Vasconcelos Prado e colaboradores

17 - Por que ensinar a ler é tão difícil? - Vicente Martins

18 - Como identificar as habilidades leitoras - Vicente Martins
19 - Vozes do passado... - Autor desconhecido
20 - Como a LDB trata os profissionais de ensino - Vicente Martins
21 - A Protetora dos Olhos - Vicente Martins

22 - Como alfabetizar sem reprovar - Vicente Martins

23 - Como lidar com crianças com dificuldades em ler - Kétilla Maria Vasconcelos Prado - Lady Dayana de Lima e Silva - Maria do Nazaré de Carvalho - Teresinha Rodrigues Alcântara

24 - Como conhecer o cérebro dos disléxicos - Vicente Martins

25 - Como intervir nos casos de dislexia escolar - Vicente Martins

26 - Crises de Identidade no Futebol Carioca - Conrad Rose

27 - Futebol, Dislexia e Treinamento - Vicente Martins

28 - Como a alfabetização carencial afeta a leitura - Vicente Martins

29 - Como atuar passo a passo na psicopedagogia da linguagem - Vicente Martins

30 - Quem tem medo do Lobo Mau - Vicente Martins

domingo, 27 de julho de 2008

MEU INTERCÂMBIO COM OS POETAS DA GERAÇÃO DE 45











Intercâmbio com os poetas da Geração de 45 - Graças a intensa correspondência com escritores brasileiros consegui manter contato durante muitos anos com os poetas da geração de 45. Os poetas de 45, diferente do movimento de 1922, surgiu num momento histórico significativo no Brasil e no Mundo. Não foi um movimento de ruptura radical com a estética literária do século XIX, da estética do passado, como fizeram os poetas de 22, mas uma revalorização do passado eterno e da valorização da palavra, como instrumento maior da poesia (MARTINS: 1945, P. 147).



No plano político, a história social da geração de 45 é marcada, pois, pelo ano de 1945, em que termina, no mundo, a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, dá-se o fim da ditadura de Vargas. O mundo passa a viver a guerra fria, e o Brasil um período democrático que chegaria à euforia no governo de Juscelino Kubitschek (!956-1961).



Enquanto os escritores de 22 foram mais exigidos politicamente, os poetas de 45 são menos exigidos social e politicamente. Se os poetas de 22 são radicais no trato poético, os poetas de 45 são racionais e têm a sobriedade lírica como atitude poética. Os poetas de 45 buscam uma renovação literária cuja preocupação principal é a própria linguagem.



O caminho, porém, não foi o de reformar, mas o de afirmar valores estéticos. Assi


m, evidencia-se, desde logo, a tendência formalizante dos poetas da Geração de 45, o que deu margem, segundo alguns críticos literários, a especulação do reaparecimento de um grupo mais neo-conservador e classicizante, de modo a sugerir uma restauração da estética parnasiana. Gerou-se aí um grande equívoco.



Os poetas da Geração de 45 não são parnasianos nem neoparnasianos. Os parnasianos são neoclássicos e têm suas características bem definidas. Os poetas da geração de 45, ao contrário, são neomodernos e buscam, na herança da modernidade, o universalismo temático, o senso de medida do verso e a dicção literária coerente com o conceito de poesia como arte, caracterizado pelo ritmo e pelo sentido. Para estudiosos como Alfredo Bosi, os poetas de 45 traduzem uma oscilação entre o puro estetismo subjetivo e a poética participante e experimentalista. (BOSI: 1993, p.521)



A palavra escrita (para alguns críticos, o palavreado) é marca substantiva na poesia da Geração de 45. Há uma extremada atenção dada pelos neomodernistas ao problema vocabular da poesia. Concebem a palavra escrita como elemento essencialmente da poesia.



A valorização da palavra, com certeza, tem levado muitos críticos literários a verem na poesia da Geração de 45 ideais parnasianos. A afirmação parece se sustentar na constatação de que os poetas de 45 partem da linguagem como ferramenta básica da criação literária. É o que se convencionou denominar de tendência neoparnasiana.





Há uma corrente de críticos literários que asseveram que os escritores da Geração de 45 fizeram uma adesão explícita, no plano poético, à tendência neoparnasiana da época, excepcionalmente rompida com a poema-objeto de João Cabral de Melo Neto. Hoje, porém, teórico como Milton de Godoy Campos relativiza essa associação entre a Geração de 45 e o Parnasianismo. (CAMPOS: 1985, 161).



O cultivo do poema não é decisivo indício de identidade entre a geração de 45 e o movimento parnasiano. O compromisso estético dos poetas da geração de 45 foi o restabelecer o apuro formal e vernacular. Isso não os torna neoparnasianos, mas neomodernos
O weltansechauung[1] da Geração de 45 é radicalmente diferente dos parnasianos . Segundo Milton de Godoy Campos, os parnasianos viam na arte poética um trabalho artesanal como fez Olavo Bilac no poema Profissão de Fé, de cunho elitista, a obra da Geração de 45, ao contrário, bem representada pelo poeta Domingos Carvalho da Silva, volta-se a uma atitude de cunho político, reveladora da angústia existencial, do choque de pensamentos contraditórios, os problemas de linguagem e as mazelas sociais e humanas.



O neomodernismo da Geração de 45 - A construção do conceito de Geração de 45 deve-se a pelo menos quatro personalidades do mundo literário: Sérgio Milliet, Tristão de Ataíde, Péricles Eugênio da Silva Ramos e Domingos Carvalho da Silva.



O ensaísta Sérgio Milliet apontou, em 1946, a presença de poetas de uma nova corrente que tentava voltar ao equilíbrio das construções poéticas.



A poesia do poetas de 45 se consolidou como expressão de lirismo nobre, sobriedade poética e decantação voluntária. Sérgio Milliet atribuía aos poetas da geração de 45 os seguintes traços: a) revalorização da palavra, b) a criação de novas imagens; c) a revisão dos ritmos e d) a busca de novas soluções formais.



Um ano depois Tristão de Ataíde assinalou a aparição de um movimento neomodernista na literatura brasileira. Coube, também, ao ensaísta classificar a poesia posterior à Semana de Arte Moderna em três fases: a) de 1922, denominada Modernismo; b) 1930, pós-modernismo e c) 1945, neomodernismo. Portanto, a denominação de neomodernistas está respaldada pelo crítico Tristão de Ataúde e tem o respaldo teórico-literário de Domingos Carvalho da Silva, porta-voz do grupo.
Em 1945, artigo de Péricles Eugênio, publicado na Revista Brasileira, confirmando o novo período da poesia moderna, reação veemente de Oswald de Andrade. Já em novembro de 1933, em carta a Afrânio Zuccolotto, que posteriormente veio fazer parte do grupo de 45 (com ele, também mantive intercâmbio postal), Oswald de Andrade reagia à proposta da revista denominada Ritmo, reagindo assim: “Numa era sincopada e arrítmica, como a nossa, esse nome só podia brotar em gente que atola no creme de ilusões dos antigos compassos”.



Somente a partir de 1948, os neomodernistas adquiriram uma consciência de geração. Tinham uma atitude comum: a) busca de uma expressão pessoal e não repetição do temário e das fórmulas verbais da geração de 1922. Diferente da atitude dos poetas de 22, os poetas da geração de 45 têm quase total desinteresse pelos temas político-sociais.



A Geração de 45 sofreu influência dos poetas de 22, mas, a partir de 1946, exerceu influência nos poetas remanescentes de 1922, que passaram a escrever uma poesia de maior preocupação estética e de amplitude mais universal, mais humana, e menos paisagística.



As tendências neomodernistas foram manifestas, inicialmente, através de Congressos e Revistas. Quatro Congressos foram importantes: os dois primeiros, em Recife, denominado I Congresso de Poesia do Recife, em 1940 e o II, em 1941. Em 1942, houve o Congresso de Poesia do Ceará e em 1948, o I Congresso de Poesia de São Paulo, este último de grande importância na afirmação geracional do grupo.
As Revistas que deram suporte aos poetas foram disseminadas em vários Estados da Federação: no Ceará, a revista José; Região, no Recife; Joaquim, em Curitiba e Orfeu, no Rio.
A revista Panorama da Nova Poesia Brasileira (Rio, 1951), de Péricles Eugênio da Silva Ramos, foi a primeira antologia de poetas neomodernistas. A partir, de 1947, a Revista Brasileira de Poesia foi porta-voz do movimento neomodernista. Passemos agora a ler excertos de cartas recebidas, por mim, de poetas de 45.



As cartas dos Poetas da Geração de 45



Durante anos, mantive intenso intercâmbio com o poeta e escritor Domingos Carvalho da Silva, ícone da Literatura Brasileira. Graças a Carvalho da Silva, os livros de literatura brasileira passaram a reconhecer, no movimento moderno, a chamada “Geração de 45”, na prosa e na poesia brasileira.
Domingos Carvalho da Silva – Nasceu em Portugal, em 21 de junho de 1915. Teve uma atuação destacada na fase polêmica, de afirmação da poesia neomodernista. Durante a realização do 1o Congresso Paulista de Poesia, em 1948, apresentou a tese acerca da “Geração de 45”, designação que foi o primeiro a usar.
Meu primeiro contato com poeta começou em 1985, quando aluno do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Durante as aulas de Literatura Brasileira (Modernismo), ministradas pela professora Eurides de Freitas Pitombeira, fui estimulado a iniciar o intercâmbio com os poetas.



A partir do livro Literatura & Linguagem, de Nelly Novaes Coelho, fiz um levantamento dos poetas da geração de 45. Fui estrategicamente à biblioteca e, após um exaustivo exame de revistas literárias, deparei-me com a Revista de Poesia e Crítica, editada por Domingos Carvalho da Silva e em seguida entrei em contato com os membros da Revista: Cyro Pimentel (SP), Domingos Carvalho da Silva(Brasília, DF), Afrânio Zuccolotto (SP), Anderson Braga Horta(Brasília,DF), José Paulo Morteira da Fonseca (RJ) e Lago Burnett (RJ), que enviaram livros para minha apreciação. Na lista dos nomes, estavam, também, Péricles Eugênio da Silva, Ledo Ivo, Gilberto Mendonça Teles, Diana Bernardes, Artur Eduardo Benevides, Valdemar Lopes, José Jézer de Oliveira e Antônio Fábio Carvalho da Silva, que, por qualquer motivo, não estabeleceram o intercâmbio postal.



Na Biblioteca do Centro de Humanidades da UECE, anotei o endereço do poeta Domingos Carvalho da Silva e remeti-lhe uma carta solicitando suas obras poéticas e propus uma “amizade” por intercâmbio postal. Uma semana depois, o poeta responde assim: “Meu jovem amigo: foi com satisfação que li a sua carta de 18 do corrente. Vejo, pelas suas palavras, que a “Revista de Poesia e crítica”, como o trigo da parábola famosa, nem sempre cai em terra sáfara. O objetivo – meu e dos meus companheiros da R.P.C – é justamente atingir o escol intelectual dos jovens, nesta hora em que os princípios da estética literária vêm sofrendo as mais constrangedoras deformações”.
Na Carta, Domingos Carvalho faz ainda referência ao poeta cearense Artur Eduardo Benevides, da Geração de 45, integrante do Conselho da Revista de Poesia e Crítica, para que o procure e solicite números atrasados da revista que havia solicitado na primeira carta. A partir daí, remeto-lhe mais cartas solicitando mais exemplares atrasados e fazendo questionamentos sobre os poetas da Geração de 45, o que acaba gerando a seguinte reação do poeta no início da carta a mim endereçada a 13 de fevereiro de 1985: “Meu jovem amigo: não disponho, infelizmente, de condições para dar resposta a todos os temas de sua carta do dia 31 de janeiro. Bastará dizer-lhe o seguinte: de 24 de janeiro até ontem expedi nada menos de sessenta cartas”. O que vem revelar a intensa correspondência que mantém o poeta. Entre os livros recebidos, tenho, autografado, Uma Teoria do Poema, onde são analisadas idéias de todas as épocas, de Aristóteles a Croce, de Hegel a Iuri Lotman, que exerceram forte influência na formação teórica e estética dos poetas da Geração de 45.
O poeta Domingos Carvalho da Silva é o principal porta-voz da Geração de 45. Seu estilo poético é caracterizado por um rigor técnico e expressão de vivência pessoal. Uma das grandes contribuições do poeta talvez esteja na formulação de uma teoria do poema.



Em entrevista concedida ao jornalista e poeta Carlos Germán Belli, publicada em El Comercio de Lima, o poeta Domingos Carvalho da Silva define poesia como um tipo de linguagem cuja base estrutural é o ritmo do verso. Na concepção do poeta e que reflete também a posição dos poetas da Geração de 45, o ritmo e a semântica dão à linguagem a feição de poesia. O poeta vê na poesia, mais do que produto intuitivo, encontra na poesia resultado da experiência da linguagem e da existência humana.



O poeta Domingos Carvalho da Silva diz, na referida entrevista, que seu processo de criação poética se realizada por impulso intuitivo e inesperado, mas em seguida se faz necessária a intervenção de mecanismos racionais de estruturação e polimento do poema. A poesia de Domingos Carvalho tem influência de poetas como Góngora, Baudelaire, T.S. Eliot, Castro Alves, Camões e Neruda.

Durante anos, mantive intenso intercâmbio, por via de cartas, com o poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca. No campo da poesia recebeu e tem recebido, também, inúmeras críticas de poetas consagrados que exaltam a densidade lírica e o poder metafórico dos seus poemas, tendo obtido várias premiações.A linguagem poética de José Paulo atinge seu ponto culminante no trabalho de dramaturgo. Após a bem sucedida encenação da Via Sacra, seu teatro culmina com Noturno em Vargem das Pedras (Editora Uapê, 1996).



José Paulo Moreira da Fonseca – Nasceu a 13 de junho de 1922, no Rio de janeiro. O poeta, também pintor, cursou Direito e Filosofia na universidade Católica do Rio. É um dos fundadores da revista Tempo Brasileiro. Seu livro de estréia Elegia Diurna, publicado em 1947, colocou-o entre os poetas mais característicos do movimento neomodernista. O contato com o poeta também começou em janeiro de 1985. Dez dias depois de ter-lhe enviado minha primeira carta, de cunho muito formal, o poeta me responde assim, de forma bem informal: “Recebi sua carta de 18 de janeiro e tenho todo interesse em travar diálogo sobre literatura, porque este diálogo mantém acesa a alma de nosso país. Peço todavia que não me chame de “ excelência”, nada mais sou que um simples homem, como diria UNAMUNO, e a excelência autêntica é sermos bem humanos, ilimitadamente humanos, o resto pouco importa, são frações decimais”
Durante muitos anos, mantive intercâmbio com o poeta Cyro Pimentel, que morreu em fevereiro de 2008. Membro da Academia Paulista de Letras.Cyro Pimentel escreveu “Poemas” (1948), “Espelho de Cinzas” (1952), “Signo Terrestre” (1956), “Árvore Nupcial” (1966), “Poemas Atonais” (1979) e “Paisagem Céltica” (1985).

O livro Paisagem Céltica, de Cyro Pimental, foi autografado a Vicente Martins

Cyro Pimentel –o poeta Cyro Pimentel, diretor e imortal da Academia Paulista de Letras. Cyro Pimentel tinha 82 anos. Deixou a viúva Amélia Mello Pimentel, quatro filhos, genros, nora, 10 netos e uma bisneta. Formado em Contabilidade, foi diretor financeiro do Hospital das Clínicas de São Paulo. Pertenceu à Geração de 1945, ao lado de outros poetas imortais. Publicou sete livros e foi eleito membro titular da Academia Paulista de Letras em abril de 1986. Cyro Pimentel foi o primeiro poeta honorífico do país. Homem de índole incontestável e ética exemplar, deixou como seu maior legado o amor à família e a necessidade de fazer o que é certo. Os dados bibliográficos, não registrado no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, de Massaud Moisés, foram enviados a mim pelo próprio poeta, em carta data de 24 de abril de 1985: “ Em atenção à sua carta de 18 de março p.p. envio-lhe alguns dados pessoais: nasci aos 22 de outubro de 1926, em São Paulo, Estado de São Paulo. Sou autodidata, apesar de Ter cursado “ Ciências Contábeis”. Todos os meus livros citados, em “Poemas Atonais”, foram publicados pelo Clube de Poesia de São Paulo. De 1979 para cá, nada publiquei. Tenho pronta, uma antologia poética, dos meus cinco livros, que estão esgotados.” E continua o poeta no parágrafo seguinte: “ O Clube de Poesia de São Paulo (e não Clube de Poesia e Crítica, que é de Brasília) foi fundado em 1948, sendo seu 1o presidente o poeta Cassiano Ricardo. O meu primeiro livro, em 1948, foi editado pelo Clube, que revelou também poetas como Décio Pignatari e Haroldo de Campos, em 1949, entre outros”. Os parágrafos seguintes da carta são indicações de contato para que possa conseguir revistas e livros do grupo. Dos livros autografados, tenho Paisagem Céltica (antologia poética), dedicado a Domingos Carvalho da Silva, e que traz um estudo introdutório sobre a poesia do poeta feito pelo ensaísta Gilberto Mendonça Teles.



Poeta João Manuel Simões(PR) indicou, em 1987, o nome de Vicente Martins para compor quadro de associado do Centro de Letras do Paraná. Entre os poetas ligados à geração de 45, travo contato com o poeta Simões. Nosso primeiro contato aconteceu em janeiro de 1986.
João Manuel Simões - Na primeira carta, sente-se o grau de liberalidade e generosidade do poeta: “Prezado Amigo Vicente Martins: Apresso-me a responder-lhe, atendendo o seu pedido, aliás muito honroso para mim. Estou anexando ao presente uma primeira “ dose” dos meus trabalhos(daqueles, naturalmente, de que possuo exemplar disponível). Oportunamente, se a primeira dose não o desgostar demais, terei de encaminhar uma Segunda dose...Abraços “ ex corde” do Simões”



Depois de ler os livros da primeira, senti uma grande influência do poeta português Fernando Pessoa na poesia de Simões, o que mereceu a seguinte observação do poeta: “Começo por agradecer a nota generosa sobre os meus apontamentos balzaquianos e, de modo especial, a associação do meu nome modesto ao imenso Pessoa (que, ao lado de Drummond e de Camões) integra aquele que eu considero a Santíssima Trindade Poética da Língua. É uma suprema generosidade que eu [autoconsciente, embora, do valor da minha obra poética – absolutamente não mereço”.



Em 1987, posicionando-se a respeito de artigo meu publicado em O Estado (Fortaleza, CE), sobre a Geração de 45, assim observa o poeta: “Pondero apenas que não pertenço á geração de 45, com a qual me sinto apenas identificado, em termos de estrutura poemática & substância poética. Sou nascido em 1939. Sou, portanto, da geração de 70 (a grosso modo, é claro.)”. Curioso é que a reação de Simões nos faz lembrar também a de João Cabral de Mello Neto que era taxativo em dizer “eu não sou de 45”, sem levar em conta que o movimento neomodernista é uma afirmação de tendência estética e clássica do Modernismo deflagrado em 1922 e que perdura ainda nos nossos dias. Não é o tempo que define um estilo de época, mas a filosofia da época e a estética literária. (MARTINS: 1990)



Entre os escritores brasileiros, mantive contato com o jornalista e escritor José Carlos Lago Burnett, da Academia Maranhense de Letras. Natural da cidade de São Luis do Maranhão, onde atuou intensamente na imprensa e em veículos de cultura com Bandeira Tribuzi e Ferreira Gullar. Considerado um dos expoentes da Geração de 45, passou a exercer atividade jornalística no Rio de Janeiro, principalmente no Jornal do Brasil.


Lago Burnett – Já falecido, mantive contato com o poeta somente em 1985. Na época, estudante, queria ser (imaginem só!) um crítico literário, o que me levou a receber a seguinte lição do escritor e jornalista: “ Agora, vamos aos assuntos de sua carta. Você quer saber o que acho de “pensar em ser um crítico literário” – naturalmente referindo-se a você próprio. Se, é claro, sente que tem embocadura e equipamento cultural para tanto, não há por que conter a vocação. E os nossos críticos são sempre muito escassos. Mais do que as teorias literárias, separam-nos a eles as convicções ideológicas”.(20.03.1985). O livro A Língua Envergonhada tem sido um livro de cabeceira na minha prática docente.



À guisa de Conclusão - A epistolografia na Literatura Brasileira revela de forma verdadeira a atividade intelectual e literária dos escritores e poetas. O intercâmbio postal é uma forma de escritor e leitor prolongarem a conversação. Minhas correspondências com escritores e poetas brasileiros, reunidas no que denominei Cenáculo Postal, marcam uma época no processo de formação escolar. Sinto-me honrado em ter trocado com escritores como Eduardo Campos, Nertan Macedo, Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, Ciro Pimentel, Márcio Catunda, César Olímpio Ribeiro Magalhães, Elpídio Reis, Ademir Antônio Bacca, Stela Maris Rezende, Veríssimo de Melo, Aloísio Bezerra, entre outros.



[1] Weltanschauung é uma palavra de origem Alemã que significa literalmente visão do mundo ou cosmovisão. Concepção do mundo é, na verdade, uma maneira subjetiva de ver e entender o mundo, especialmente as relações humanas e os papéis das pessoas e o seu próprio na sociedade, e também, as respostas a questões filosóficas básicas, como a finalidade da existência humana, a existência de vida (e castigo ou recompensa) após a morte etc.

MINHA MÃE ME ENSINOU A SEGUIR SÓCRATES NA MARRA


























PEIA POR UM TRIS OU “SÓ SEI QUE NADA SEI”



Nos anos 80, minha mãe Pedrina me incentivava a me tornar jornalista. Nos 90, descartada a carreira de jornalista, já atuava como professor na área de Letras. Ela me olhava de forma enviesada. Uma vez (1994), sua pensão militar, por conta do falecimento do meu pai, foi retida no Banco do Brasil. Resolveu, então, destemida e confiante, escrever uma carta ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Sugeri um advogado descrente da atenção do Presidente.
Levou uma tarde inteira escrevendo a carta. Depois pediu para eu ler e comentar o texto para ela. Li, reli e, em certa altura, perguntou-me: “ A carta tá boa?”. Respondi de pronto: “Tá, mãe, mas com muitos erros de português”. Retrucou: “Mas dá para o presidente FHC entender que quero que ele libere meu dinheiro hoje mesmo?”. Respondi: “Sim, claro, qualquer pessoa entende sua mensagem”. Aí, ameaçou: “ Então, cabra, não mexa em nada na minha carta. Você sabe ensinar a escrever cartas, mas não é você que vai me ensinar a ser cidadã com minhas próprias palavras. Cale sua boca. Você não sabe de nada”. Ri. Ela, séria, fez gesto de ameaça de peia com as mãos, caso insistisse em corrigir seus erros de Português.
Dez dias depois de ter enviado a carta ao Presidente FHC, recebeu uma ligação telefônica do secretário particular do Presidente, informando que havia atendido ao seu pedido. Dá para imaginar minha cara no chão, meu sorriso desconsertado. Aqui vale o pensamento de Sócrates: “Só sei que nada sei”.

Uma boa lembrança que tenho, na minha memória cultural, é a do início dos anos 80. Na oportunidade, ganhei, da minha mãe, alguns livros de leitura, uma coleção de dicionário da língua portuguesa e uma máquina de datilografia. A partir daí iniciei minha “jornada de escritor”, escrevendo diariamente para mim mesmo e escrevendo cartas para poetas e escritores brasileiros, especialmente os cearenses e, vale salientar, os da Academia Cearense de Letras, uma vez que havia conseguido, com o professor Pedro Paulo Montenegro, na época do Colégio Militar e da Universidade Federal do Ceará(UFC), um exemplar da Revista da Academia Cearense de Letras, com endereço e telefones dos imortais cearenses. Foi nesse período que comecei a contactar escritores cearenses como Nertan Macedo e Eduardo Campos.
Nos anos 90, a partir de 1996, voltei a escrever intensamente, valendo-me dos recursos do editor de texto do computador. Uma vez escrevi e publiquei em um jornal literário; “ Depressão, para mim, é estado lírico”. Sempre que ficava angustiado por algo, seja por questões domésticas ou amorosas, recorreria à poesia. Com o advento da Internet e da sociedade informática, passei a escrever ainda mais, agora, artigos na área educacional, para sites, jornais e revistas educacionais.
A idéia que muitos têm, porém, é a de que o gênero epistolar e a arte de correspondência já estão superados pelas novas tecnologias eletrônicas. Na verdade, a sociedade informática fortalece o intercâmbio através dos recursos on-line de conversação.
Como bem assinala Cassiano Nunes, quanto mais a sociedade se moderniza, mais a correspondência se intensifica, se valoriza e se conserva. Daí, dizer-se que a arte de correspondência nasceu do pragmatismo. Em substância, a carta é expressão do diálogo humano.

Mexendo e remexendo nos meus alfarrábios, deparo-me, agora, com as cartas recebidas de escritores e poetas brasileiros. Em 1985, por exemplo, recebi uma carta do poeta José Paulo Moreira da Fonseca[1]. Naquele ano, ainda era estudante do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará(UECE), em Fortaleza. Na carta, datada de 28 de janeiro de 1985, dezoito dias de enviar-lhe minha correspondência, o poeta manifestava interesse em travar diálogo sobre literatura, porque, segundo ele, “este diálogo mantém acesa a alma de nosso país”.
Como, na carta enviada ao poeta não o conhecia e não me sentia à vontade para me dirigir-lhe com pronome de tratamento informal, uma vez que reconhecia um ícone da literatura brasileira, chamei-lhe, no remissão da carta, de “excelentíssimo Sr”, o que foi refutado, de pronto, pelo José Paulo: “ Peço, todavia, que não me chame de “excelência”, nada mais sou que um simples homem, como diria Unamuno, e a excelência autêntica é sermos bem humanos, ilimitadamente humano, o resto pouco importa, são frações decimais”.
Trocar idéias e opiniões com escritores e poetas, no meu caso, sempre foi uma aprendizagem. Como diria o escritor Cassiano Nunes: “A correspondência constitui uma das formas mais legítimas e palpitantes de expressão do humano”. Esta nossa preocupação acadêmica com cartas vem se forjando há mais de duas décadas, resultado de intenso e diligente intercâmbio epistolar com poetas e escritores brasileiros. Desde adolescente o intercâmbio postal me fascina bastante. Cartear também abre (e abriu-me) horizontes.

Quando conheci o escritor cearense Eduardo Campos, em 1982, então Secretário de Cultura do estado, no Governo Gonzaga Mota, recebi como. regalo autografado, o livro “Revelações da condição de vida dos cativos do Ceará” (Fortaleza, SECULT, 1982), em que o autor faz comentários sobre problemas do cativeiro negro no Ceará, com destaque para episódios ou circunstâncias que, de certa forma, segundo ele, caracterizam o relacionamento entre senhores e servos. A obra também faz levantamento do noticio de negros fujões, de 1839 a 1880. Mais recentemente, fazendo estudos sobre a obra Luzia-Homem, do sobralense Domingos Olímpio, deparei-me com a informação de Eduardo Campos o jornal O Sobralense, citado na referida obra, influenciou em muito o vocabulário regional, a descrição da cidade no final do século XIX, fundamentais para o regionalismo naturalista presentes em Luzia-Homem.

Marcou-me muito o contato com o escritor Eduardo Campos. A consciência de que a melhor forma de ingressar no mundo do trabalho é pela via do concurso público ou processo seletivo veio quando, através de uma carta, em 1982, escrevi para o poeta e escritor cearense solicitando emprego no serviço público e recebi um “não” do poeta com a mais providencial justificativa: “(...) Não tenho como abrigar sua inteligência na minha empresa. Nem como remunerá-la. A administração pública, a quem servi com dedicação, falhou-me na única reivindicação que postulei para pessoa de minha família. (...) Participe de quantos concursos aparecerem. E estude. E lute. Não é tempo de depor as luvas. Não sei se o decepciono. Se involuntariamente o faço mais triste, me desculpe. Tenho, em primeiro lugar, compromisso comigo mesmo de ser sincero. Estou convencido de que você vai obter o que deseja. É só questão de paciência e tempo” (14.9.1983)
Em 1981, fui admitido no extinto Clube dos Poetas Cearenses, fundado no dia de 30 de março de 1969 e que funcionou, por muitos anos, na Casa Juvenal Galeno.
Os encontros semanais, sempre aos sábados à noite, renderam-me uma rica e generosa experiência de produzir e declamar poemas meus e de outros poetas. Também foi singular o contato pessoal e semanal poetas e escritores cearenses como Nenzinha Galeno, Moreira Campos, Francisco Carvalho, Horácio Dídimo, Carlos d'Alge, Linhares Filho, Antônio Girão Barroso, Rachel de Queiroz, Airton Monte, Luciano Maia, José Alcides Pinto, Barros Pinho, Márcio Catunda, Barros Alves, Ribeiro Ramos e muitos trovadores cearenses como Fernando Câncio de Araújo e Aloísio Bezerra.

Durante muitos anos, freqüentei a Casa de Juvenal Galeno, no centro de Fortaleza, onde realizadas as reuniões do extinto Clube dos Poetas Cearenses Os saraus literários que animavam as noites da casa eram prestigiados por escritores famosos como Leonardo Mota, Quintino Cunha, Jader de Carvalho, Patativa do Assaré, Rachel de Queiroz, Fernandes Távora, Raimundo Girão, Moreira Campos, Mozart Soriano Albuquerque entre tantos outros.

Em 1983, ingressei no Curso de Letras da UECE e, na militância estudantil, atuei na diretoria cultural do Centro Acadêmico Jáder de Carvalho, oportunidade em que propusemos uma homenagem ao poeta Jáder de Carvalho, até então, já meu amigo, desde meu período de aluno de Colégio Militar
Graças a uma correspondência ativa com escritores de outros estados da Federação, recebemos reiterados convites para participar, como membro correspondente, de entidades literárias. O escritor Humberto Feliciano de Carvalho, de Uruguaiana (RS) me convidou e aceitei de pronto, em 1986, para participar da Academia Internacional de Ciências Humanísticas(admitido em 6/11/1986); Academia Internacional de Letras “3 Fronteiras” (Admitido em 20/07/1986); Clube de Poesia de Uruguaiana (admitido em 9/06/196) e Academia de Letras de Uruguaiana (admitido em 13/04/1986). Além das entidades de Uruguaiana, na década de 80, do século passado, participamos como membro correspondente da Academia Eldoradense de Letras – Casa de Francisca Júlia, de Eldorado(Vale do Ribeira), em SP, a convite de João Albano Mendes da Silva.
Dois diplomas, entre os recebidos como membro correspondente de entidades culturais e literárias, afiguram-se de grande relevo pessoal, ambos de 1987: o da Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni (admitido em 20/05/1987), a convite do poeta César Olímpio Ribeiro Magalhães (RJ) e para compor o quadro de associado do Centro de Letras do Paraná(admitido em 19/12/1987), por indicação do poeta e amigo João Manoel Simões.

[1] O poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, 1922 e faleceu na mesma cidade 2004).Foi um jurista, filósofo, poeta, ensaista, teatrólogo e pintor brasileiro.Formou-se em Direito em 1945 e em Filosofia em 1948. É considerado pela crítica literária como um maiores poetas de sua geração, tendo sido indicado várias vezes para a Academia Brasileira de Letras, entretanto sem sucesso. Escreveu diversos livros de direito, filosofia, poesia e crítica de arte. A crítica de arte nacional e internacional tem reconhecido o valor de sua pintura e por isso mesmo.

COMO FOI MINHA VIDA LITERÁRIA




Vida Literária - A evocação à memória literária leva-me ao final dos anos de 70, quando ingresso, em 1976, no Colégio Militar de Fortaleza (CMF). Entrei no CMF para uma “correção” por parte de minha mãe. Tudo começou com “implicância” de minha mãe com relação à minha cabeleira. Não queria cortar os cabelos.
Queria ser hippie[1]. Estudava no Colégio Salesiano Dom Bosco, mas não gostava de estudar. Evangélico, era proibido pela mãe de assistir as missas celebradas na Igreja da Piedade. Durante anos assistia as missas do lado de fora. Um dia, ousei, entrei, todo tremendo, e me dirigia ao padre que celebrava a missa e tomei da hóstia consagrada. Por um instante, pensei ter praticado um pecado mortal, mas, no coração me sentia cristão ou católico porque minha avó me batizara na igreja católica.

Como era filho de militar (meu pai era cabo da Aeronáutica, reformado), minha mãe, apesar dos poucos estudos (só fez até a 4ª série ou 5º ano do ensino fundamental), era uma mulher de visão. Uma vez, contou-me, passava em frente ao Colégio Militar, em direção ao trabalho de lavadeira, na Aldeota, e, por impulso, resolveu se informar sobre o ingresso de alunos.
Soube que, na minha condição de “filho de militar”, poderia ingressar, desde que fosse por concurso de admissão à 5ª série. Minha mãe não pensou duas vezes: fez minha inscrição e passei com a nota mínima. Perdi dois anos para ingressar no início do ensino fundamental. E, em 1976, minha santa mãezinha assistia, vitoriosa, o corte de meus cabelos, enormes e crespos e o barbeiro, seu Luís, não teve piedade em destruir a “floresta” em dois minutos, com a máquina zero.
Houve até alguns “sabacus” em comemoração à raspagem de minha cabeça. Mais tarde, compreendi a providência de minha mãe, uma humilde lavadeira, mas mulher com olhar proativo sobre nossos destinos: todos os meus “colegas de infância” se tornaram marginais, ainda na adolescência, e na fase adulta, os que sobreviveram, acabaram resumindo suas vidas a cumprimento de sentenças judiciais em penitenciárias.

Ainda no Colégio Salesiano Dom Bosco, situado no bairro da Piedade, em Fortaleza, senti que algo estava errado comigo: tinha dificuldade em ler em voz alta. Sofria do que chamamos, hoje, na Psicolingüística, de dislexia. Na Psicolingüística como na Medicina, a dislexia refere-se à perturbação na aprendizagem da leitura pela dificuldade no reconhecimento da correspondência entre os símbolos gráficos e os fonemas, bem como na transformação de signos escritos em signos verbais É também a dificuldade para compreender a leitura, após lesão do sistema nervoso central, apresentada por pessoa que anteriormente sabia ler

Certa vez, em sala de aula, no Colégio Salesiano Dom Bosco, minha professora de 2ª série pediu-me que lesse o poema de Manoel bandeira “Irene no Céu” que traz nos seus versos: “Irene preta/Irene boa/Irene sempre de bom humor/Imagino Irene entrando no céu:/- Licença, meu branco!E São Pedro bonachão:/- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”.

Li, mal, trocando as letras e os sons das palavras, numa leitura lenta e sofrível, o poema de Manoel Bandeira e a professora foi impiedosa e não me poupou dos carões. Literalmente, foi massacrado em sala de aula. Naquela manhã, resolvi nunca mais pisar na escola e passei o dia perambulando na periferia de Fortaleza. Deixei a todos preocupados: minha mãe, a professora e o diretor do Colégio Salesiano, Pe Samuel.

Na época, pensei que ler um poema era compreender a mensagem do autor. Filho de uma negra, julguei que seria uma ótima oportunidade de comparar minha mãe à Irene.
Considerava, mesmo em tenra idade, que o poema Irene no Céu era uma homenagem à mulher negra, um texto que redime a velha figura da mãe preta, tão presente na vida social brasileira no tempo da escravidão e nos anos seguintes. O poema enalteceria, no meu entendimento, Irene ao representar a deferência de São Pedro, porteiro do céu, em relação a ela. Hoje, relendo o poema, vejo que a caracterização de Irene como uma preta "boa" e "sempre de bom humor", me incomoda.
Penso que, talvez o preço da deferência com que Irene é tratada por São Pedro seja seu "eterno bom humor", isto é, sua falta de reação diante da situação opressiva vivida pelos negros no Brasil. Observo que, depois da morte, Irene trata São Pedro de forma subserviente, como provavelmente tratava os brancos enquanto era viva: "- Licença, meu branco!" Segundo os preceitos do cristianismo, só vão para o céu as pessoas boas que, nesse contexto, seriam aquelas que foram passivas e mantiveram-se no seu devido lugar. Sinto que este poema põe em evidência a imagem do negro conformado.
O certo é que ingressara, em 1976, no Colégio Militar com muita dificuldade em ler, em voz alta, textos escolares, especialmente, os poemas com rima. Durante os sete anos de estudos, meu desafio pessoal foi enfrentar minhas dificuldades leitoras, escritoras, especialmente as ortográficas. Uma saída, em 1978, foi me impor em sala de aula, através da poesia, escrevendo poemas e levando-os à apreciação do meu professor de Português, na época, um major do Exército que, cedo, acolheu-me como “um bom aluno”, apesar dos baixos rendimentos em fluência verbal (havia aula, às quintas-feiras, de expressão oral).
Com o tempo e contando com seu apoio pedagógico, resgatei minha auto-estima e me tornei um bom aluno de língua portuguesa e apontado, mais tarde, por ele, como alguém que, no futuro profissional, teria condições de se tornar docente, hipótese que se tornou realidade quando fiz concurso para professor do Colégio Militar de Fortaleza, em 1991, tendo tirado o primeiro lugar para a vaga de professor de Língua Portuguesa.

Na época de aluno, no Colégio Militar, pensava em seguir a carreira militar. Ir para a Escola Preparatória de Cadetes, em Campinas (SP) e, em seguida, para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). Em 1982, o comandante do CMF e hoje, general reformado, Domingos Miguel Antônio Gazzineo, soube que, sendo filha de lavadeira, não seguiria a carreira militar, e sim, o magistério, argumentou de todas as formas para eu não correr “o risco de passar fome”, como me advertiu. Todavia, a idéia de um regime militar e enclausurado logo me desvanecia e queria ser mesmo professor.
Como na famosa parábola de Jesus, nem sempre as sementes caem em terra sáfara. Segui os velhos conselhos do major e da minha intuição. Tudo que aprendia depois de muitas horas de estudos, repassava para colegas “mais fracos”.
Dava aulas, na condição ainda aluno do ensino fundamental, para alunos que também apresentavam dificuldades de aprendizagem. Assim, senti uma vocação precoce para o magistério de Letras e, nele, em pouco tempo, poderia resolver minhas pequenas questões domésticas, como, por exemplo, ajudar financeiramente minha mãe e poder lhe dar uma tranqüilidade do ponto de vista de cuidados médicos, boa alimentação e moradia.
Desde cedo também me interessei pela leitura literária.
No período de aluno do Colégio Militar de Fortaleza, contando com a colaboração ativa e inteligente do colega de sala de aula (da 6ª série (ou 7º ano) do ensino fundamental) Daniel Hortêncio Medeiros, hoje, advogado e professor de História, em Curitiba, criamos, 1978, na biblioteca do CMF, um clube literário denominado Jovens da Literatura Moderna (JLM), com o objetivo de iniciarmos intercâmbio cultural, troca de idéias e opiniões sobre literatura, com escritores brasileiros.

Lembro-me que o local escolhido para funcionar a sede provisória do grupo foi a biblioteca do Colégio, mas longe dos olhares “tirânicos” do seu Juarez (anos depois, um grande amigo), ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e que não admitia um só ruído nas dependências da Biblioteca. A primeira idéia saiu do Hortêncio: “
Vamos lançar um Manifesto!”. Mas a palavra Manifesto era proibida no Colégio Militar (afinal, vivíamos, no País, em pleno clima de ditadura militar) e aí resolvemos de forma silenciosamente “subvertora” escrever para os escritores brasileiros, numa espécie de apelo à solidariedade dos literatos, contando-lhes de nossa “sociedade secreta”.

Aliás, a idéia de ser, também, escritor ou poeta, no contexto de Colégio Militar, quando não despertava risos dos colegas de sala gerava um clima de desconfiança de nossa virilidade: “poeta é coisa para baitola” ou coisa do tipo “militar só é pra macho”. Mas onde os escritores? E veio uma resposta óbvia: na biblioteca.

E assim procedemos: começamos a investigar de estante a estante os “escritores disponíveis”, isto é, vivos e com endereço para correspondência postal. A primeira foi Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, grande escritora de livros de Literatura Infantil.[1] A partir daí, escrever para os literatos foi um hobby que se transformou interesse acadêmico na fase universitária.

Os primeiros escritores contactados foram Lúcia Pimental de Sampaio Goes (SP) e Ademir Antônio Bacca(RS). Posteriormente, a partir da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental e Ensino Médio, no Colégio Militar de Fortaleza, participamos da diretoria da Associação Literária brigadeiro Sampaio (ALBS), quando, em 1982, chegamos à presidência da entidade que congrega os alunos do CMF.

Depois de um ano freqüentando os saraus literários do Clube dos Poetas Cearenses, fui, em 1981, admitido como sócio-efetivo com novas prerrogativas: poderia recitar meus próprios poemas e ter voz e voto durante as assembléias dos confrades.
Nos anos 70, 80 e 90, escrevi bastante poemas. Participei ativamente, aos sábados à noite, dos saraus literários do Clube dos Poetas Cearenses. Nada, claro, que merecesse publicação em livros, embora, em algumas vezes, tenha recebido prêmios literários. Escrevi poemas como os que seguem abaixo sob o título inédito de Poemas Crepusculares:

MASOQUISMO MATINAL

Uma estranhíssima
ansiedade de tirar a barba,
Cabelinho por cabelinho.
Cortar-me
por uma distração qualquer e
por um vampirismo
ainda mais injustificável
ver o sangue descer.

II– SACO DE PANCADA

Disse-te uma vez:
és Emília, minha boneca de pano.
Digo-te, agora:
és Emília, bruxa insana
que fez do meu coração
um saco de pancadas.

RENDIÇÃO

Percorro o mundo
mas volto a ti
porque é no teu seio
que está meu refúgio.
Contemplo flores
mas é no teu colo
que encontro o mais belo
jardim da vida.
Tudo que escrevo,
tudo que falo,
tudo subjaz ao que faço
mas o que sou é
essencialmente construído por ti.
Eis-me aos teus pés, senhora.
Tua vida me faz homem
mas é o teu amor que me
transforma poeta.


[1] Os "hippies" (no singular, hippie) eram parte do que se convencionou chamar movimento de contracultura dos anos 60 tendo relativa queda de popularidade nos anos 70. Adotavam um modo de vida comunitário ou estilo de vida nômade, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduismo, e/ou as religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana e das economia capitalistas e totalitárias. Eles enxergavam o patriarcalismo, o clientelismo governamental, as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, e os valores sociais tradicionais como parte de um "estabelecimento" único, e que não tinha legitimidade.

MINHA INFÂNCIA EM IGUATU




Nascimento de um “Copinha” - Nasci, em Iguatu[1], em 27 de dezembro de 1961. Minha Avó materna Brasilina da Silva (conhecida por Senhora) foi a parteira. Conta minha mãe[2] em seu livro não concluído “A Menina da Vazante” que ao nascer, dada a pobreza, minha avó me pôs no chão batido de barro vermelho trazido do Açude do Governo.

Minha família, naquela localidade, era conhecida como Copinha. A rede que me obrigou os primeiros dias foi emprestada. Aos dois ou três anos de idade, ganhei meu primeiro brinquedo: a lembrança fugaz, mas recordo-me de algo como um cavalo de pau, feito de madeira local. Montado em meu “alazão” ia, na imaginação fértil de criança, do Acena (Sítio Aceno) à sede de Iguatu, fazer “ compras” e levava, na “garupa”, todos da família.

Na época, já sem pai – separado de minha mãe – tinhas limitações de uma criança muito pobre, mas recebia muito carinho de todos, especialmente minha avó Senhora (materna) que carinhosamente deu-me o nome de Vicente de Paula da Silva Martins, em homenagem a São Vicente de Paula, santo a quem dirigia suas preces como uma lídima católica.

Passei minha primeira infância no Iguatu, numa localidade de gente simples chamada Sítio Aceno, distrito de José Alencar[3], mas a população simplesmente chamavam-no de “Acena”, próximo ao Açude do Governo, pescando e comendo peixe como piau e curimatã, andando muito a cavalo, lambuzando-me de mel de abelha e farinha, tomando banho em riachos, barragens e cachoeiras e ouvindo histórias de trancoso[4].

Tenho boas lembranças do meu avô, baixo, negro e muito trabalhador. Lembro-me de seu orgulho de mostrar aos visitantes e moradores da localidade a colheita do arroz, feijão, milho do tempo bom e do zelo em se preparar para o momento de estiagem.

Lembro-me de meus avós indo para a sede da cidade para vender carvão para complementar a renda familiar. Meu avô era severo e não via com bons olhos o fato de minha mãe estar separada de meu pai, desde o nascimento, o que, mais tarde, descobri que foi iniciativa dele e não dela: ela, ao contrário, sempre o amou, mas, infelizmente, não teve o amor correspondido.

Em 65, contando com apenas quatro anos de idade, minha mãe tomou a iniciativa de sair do Iguatu e ir embora para Fortaleza. Havia se tornado no Acena uma exímia lavadeira. “Era muito elogiada pelas pessoas como lavadeira de primeira e todas as pessoas me incentivam a ir para Fortaleza para ganhar dinheiro”, contou-me uma vez.

Logo quando chegou a Fortaleza, vinda de trem, deparou-se, na Praça da Estação, centro da capital, com uma cena que a marcaria para sempre: viu pessoas pobres, retirantes, mendigos, bêbados, prostitutas, desocupados e, num átimo, como me contou, tomou a iniciativa de tomar o rumo da Aldeota, na época, referência de bairro de classe alta, onde se concentravam as famílias tradicionais e ricas de Fortaleza. Pôs-me em seus ombros e foi, de porta em porta, pedir emprego como lavadeira.

Claro, a maioria das residências, mesmo precisando dos serviços de lavagem de roupa e de uma boa passadeira de roupa, recusava a oferta de emprego ao ver uma criança em seus ombros. Contou-me que passamos sede e fome. No entanto, depois de muita peregrinação, uma família abastada nos acolheu: a família Garcia, dona da fonte de água mineral São Gerardo. Graças a família, consegui, por influência de Elane García, filha de dona Nenê Garcia, que era professora, estudar, por muitos anos, com bolsa de estudos, no Colégio Salesiano Dom Bosco.

Minha mãe, creio, trabalhou por uns dez anos nessa residência, situada na Heráclito Graça, em Fortaleza. Estudei no Colégio Salesiano Dom Bosco até o ano de 1975; em 1976, fiz seleção para o Colégio Militar de Fortaleza. Como cheguei tarde à alfabetização e repeti algumas séries no ensino primário, cheguei com distorção série-idade à 5ª série do Ensino Fundamental, em 1976, aos 13 anos, no CMF, e apresentando sérias dificuldades de aprendizagem na matemática, leitura, escrita e ortografia.


Durante sete anos (1976-1982) fui aluno do Colégio Militar de Fortaleza, período marcante na minha formação escolar. Meu interesse nas letras surgiu no ensino fundamental. Incentivado por um ambiente de fomentação à leitura e aos estudos literários, Tornei-me, na época, “poeta” e “contista”, premiado nos concursos literários promovidos pelo CMF.

[1] Em 1707, o padre João de Matos Serra, prefeito das missões, percorreu a região habitada pelos aguerridos Quixelôs, visitando, de passagem, terras em que se acha localizado o atual Município de Iguatu. O aldeamento, que era conhecido como Venda passou a ser identificado pelo nome de Telha, em virtude da configuração convexa de suas terras, que convergiam para o rio Trussu..Em 20 de outubro de 1833, Telha teve seu topônimo mudado para Iguatu (Lei n° 2.035), de origem indígena que significa "água boa" ou "rio bom" lagoa, (ig ou i = água; catu = bom). ”.
[2] Minha mãe Pedrina Maria da Silva Martins faleceu, em Fortaleza, em 15 de dezembro de 2006, vítima de complicações de Diabetes.

[3] Pelo decreto estadual nº 448, de 20-12-1938, o distrito de José de Alencar passou a
denominar-se simplesmente Alencar. Pelo decreto estadual nº 1153, de 22-11-1951, o distrito de Alencar voltou a denominar-se José de Alencar.


[4] Também denominada conto-da-carochinha. Refere-se ao conto popular caracterizado pelo elemento sobrenatural ou fantástico, em que intervêm seres fabulosos, e animais antropomórficos.