domingo, 27 de julho de 2008

MINHA INFÂNCIA EM IGUATU




Nascimento de um “Copinha” - Nasci, em Iguatu[1], em 27 de dezembro de 1961. Minha Avó materna Brasilina da Silva (conhecida por Senhora) foi a parteira. Conta minha mãe[2] em seu livro não concluído “A Menina da Vazante” que ao nascer, dada a pobreza, minha avó me pôs no chão batido de barro vermelho trazido do Açude do Governo.

Minha família, naquela localidade, era conhecida como Copinha. A rede que me obrigou os primeiros dias foi emprestada. Aos dois ou três anos de idade, ganhei meu primeiro brinquedo: a lembrança fugaz, mas recordo-me de algo como um cavalo de pau, feito de madeira local. Montado em meu “alazão” ia, na imaginação fértil de criança, do Acena (Sítio Aceno) à sede de Iguatu, fazer “ compras” e levava, na “garupa”, todos da família.

Na época, já sem pai – separado de minha mãe – tinhas limitações de uma criança muito pobre, mas recebia muito carinho de todos, especialmente minha avó Senhora (materna) que carinhosamente deu-me o nome de Vicente de Paula da Silva Martins, em homenagem a São Vicente de Paula, santo a quem dirigia suas preces como uma lídima católica.

Passei minha primeira infância no Iguatu, numa localidade de gente simples chamada Sítio Aceno, distrito de José Alencar[3], mas a população simplesmente chamavam-no de “Acena”, próximo ao Açude do Governo, pescando e comendo peixe como piau e curimatã, andando muito a cavalo, lambuzando-me de mel de abelha e farinha, tomando banho em riachos, barragens e cachoeiras e ouvindo histórias de trancoso[4].

Tenho boas lembranças do meu avô, baixo, negro e muito trabalhador. Lembro-me de seu orgulho de mostrar aos visitantes e moradores da localidade a colheita do arroz, feijão, milho do tempo bom e do zelo em se preparar para o momento de estiagem.

Lembro-me de meus avós indo para a sede da cidade para vender carvão para complementar a renda familiar. Meu avô era severo e não via com bons olhos o fato de minha mãe estar separada de meu pai, desde o nascimento, o que, mais tarde, descobri que foi iniciativa dele e não dela: ela, ao contrário, sempre o amou, mas, infelizmente, não teve o amor correspondido.

Em 65, contando com apenas quatro anos de idade, minha mãe tomou a iniciativa de sair do Iguatu e ir embora para Fortaleza. Havia se tornado no Acena uma exímia lavadeira. “Era muito elogiada pelas pessoas como lavadeira de primeira e todas as pessoas me incentivam a ir para Fortaleza para ganhar dinheiro”, contou-me uma vez.

Logo quando chegou a Fortaleza, vinda de trem, deparou-se, na Praça da Estação, centro da capital, com uma cena que a marcaria para sempre: viu pessoas pobres, retirantes, mendigos, bêbados, prostitutas, desocupados e, num átimo, como me contou, tomou a iniciativa de tomar o rumo da Aldeota, na época, referência de bairro de classe alta, onde se concentravam as famílias tradicionais e ricas de Fortaleza. Pôs-me em seus ombros e foi, de porta em porta, pedir emprego como lavadeira.

Claro, a maioria das residências, mesmo precisando dos serviços de lavagem de roupa e de uma boa passadeira de roupa, recusava a oferta de emprego ao ver uma criança em seus ombros. Contou-me que passamos sede e fome. No entanto, depois de muita peregrinação, uma família abastada nos acolheu: a família Garcia, dona da fonte de água mineral São Gerardo. Graças a família, consegui, por influência de Elane García, filha de dona Nenê Garcia, que era professora, estudar, por muitos anos, com bolsa de estudos, no Colégio Salesiano Dom Bosco.

Minha mãe, creio, trabalhou por uns dez anos nessa residência, situada na Heráclito Graça, em Fortaleza. Estudei no Colégio Salesiano Dom Bosco até o ano de 1975; em 1976, fiz seleção para o Colégio Militar de Fortaleza. Como cheguei tarde à alfabetização e repeti algumas séries no ensino primário, cheguei com distorção série-idade à 5ª série do Ensino Fundamental, em 1976, aos 13 anos, no CMF, e apresentando sérias dificuldades de aprendizagem na matemática, leitura, escrita e ortografia.


Durante sete anos (1976-1982) fui aluno do Colégio Militar de Fortaleza, período marcante na minha formação escolar. Meu interesse nas letras surgiu no ensino fundamental. Incentivado por um ambiente de fomentação à leitura e aos estudos literários, Tornei-me, na época, “poeta” e “contista”, premiado nos concursos literários promovidos pelo CMF.

[1] Em 1707, o padre João de Matos Serra, prefeito das missões, percorreu a região habitada pelos aguerridos Quixelôs, visitando, de passagem, terras em que se acha localizado o atual Município de Iguatu. O aldeamento, que era conhecido como Venda passou a ser identificado pelo nome de Telha, em virtude da configuração convexa de suas terras, que convergiam para o rio Trussu..Em 20 de outubro de 1833, Telha teve seu topônimo mudado para Iguatu (Lei n° 2.035), de origem indígena que significa "água boa" ou "rio bom" lagoa, (ig ou i = água; catu = bom). ”.
[2] Minha mãe Pedrina Maria da Silva Martins faleceu, em Fortaleza, em 15 de dezembro de 2006, vítima de complicações de Diabetes.

[3] Pelo decreto estadual nº 448, de 20-12-1938, o distrito de José de Alencar passou a
denominar-se simplesmente Alencar. Pelo decreto estadual nº 1153, de 22-11-1951, o distrito de Alencar voltou a denominar-se José de Alencar.


[4] Também denominada conto-da-carochinha. Refere-se ao conto popular caracterizado pelo elemento sobrenatural ou fantástico, em que intervêm seres fabulosos, e animais antropomórficos.

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