domingo, 27 de julho de 2008

COMO FOI MINHA VIDA LITERÁRIA




Vida Literária - A evocação à memória literária leva-me ao final dos anos de 70, quando ingresso, em 1976, no Colégio Militar de Fortaleza (CMF). Entrei no CMF para uma “correção” por parte de minha mãe. Tudo começou com “implicância” de minha mãe com relação à minha cabeleira. Não queria cortar os cabelos.
Queria ser hippie[1]. Estudava no Colégio Salesiano Dom Bosco, mas não gostava de estudar. Evangélico, era proibido pela mãe de assistir as missas celebradas na Igreja da Piedade. Durante anos assistia as missas do lado de fora. Um dia, ousei, entrei, todo tremendo, e me dirigia ao padre que celebrava a missa e tomei da hóstia consagrada. Por um instante, pensei ter praticado um pecado mortal, mas, no coração me sentia cristão ou católico porque minha avó me batizara na igreja católica.

Como era filho de militar (meu pai era cabo da Aeronáutica, reformado), minha mãe, apesar dos poucos estudos (só fez até a 4ª série ou 5º ano do ensino fundamental), era uma mulher de visão. Uma vez, contou-me, passava em frente ao Colégio Militar, em direção ao trabalho de lavadeira, na Aldeota, e, por impulso, resolveu se informar sobre o ingresso de alunos.
Soube que, na minha condição de “filho de militar”, poderia ingressar, desde que fosse por concurso de admissão à 5ª série. Minha mãe não pensou duas vezes: fez minha inscrição e passei com a nota mínima. Perdi dois anos para ingressar no início do ensino fundamental. E, em 1976, minha santa mãezinha assistia, vitoriosa, o corte de meus cabelos, enormes e crespos e o barbeiro, seu Luís, não teve piedade em destruir a “floresta” em dois minutos, com a máquina zero.
Houve até alguns “sabacus” em comemoração à raspagem de minha cabeça. Mais tarde, compreendi a providência de minha mãe, uma humilde lavadeira, mas mulher com olhar proativo sobre nossos destinos: todos os meus “colegas de infância” se tornaram marginais, ainda na adolescência, e na fase adulta, os que sobreviveram, acabaram resumindo suas vidas a cumprimento de sentenças judiciais em penitenciárias.

Ainda no Colégio Salesiano Dom Bosco, situado no bairro da Piedade, em Fortaleza, senti que algo estava errado comigo: tinha dificuldade em ler em voz alta. Sofria do que chamamos, hoje, na Psicolingüística, de dislexia. Na Psicolingüística como na Medicina, a dislexia refere-se à perturbação na aprendizagem da leitura pela dificuldade no reconhecimento da correspondência entre os símbolos gráficos e os fonemas, bem como na transformação de signos escritos em signos verbais É também a dificuldade para compreender a leitura, após lesão do sistema nervoso central, apresentada por pessoa que anteriormente sabia ler

Certa vez, em sala de aula, no Colégio Salesiano Dom Bosco, minha professora de 2ª série pediu-me que lesse o poema de Manoel bandeira “Irene no Céu” que traz nos seus versos: “Irene preta/Irene boa/Irene sempre de bom humor/Imagino Irene entrando no céu:/- Licença, meu branco!E São Pedro bonachão:/- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”.

Li, mal, trocando as letras e os sons das palavras, numa leitura lenta e sofrível, o poema de Manoel Bandeira e a professora foi impiedosa e não me poupou dos carões. Literalmente, foi massacrado em sala de aula. Naquela manhã, resolvi nunca mais pisar na escola e passei o dia perambulando na periferia de Fortaleza. Deixei a todos preocupados: minha mãe, a professora e o diretor do Colégio Salesiano, Pe Samuel.

Na época, pensei que ler um poema era compreender a mensagem do autor. Filho de uma negra, julguei que seria uma ótima oportunidade de comparar minha mãe à Irene.
Considerava, mesmo em tenra idade, que o poema Irene no Céu era uma homenagem à mulher negra, um texto que redime a velha figura da mãe preta, tão presente na vida social brasileira no tempo da escravidão e nos anos seguintes. O poema enalteceria, no meu entendimento, Irene ao representar a deferência de São Pedro, porteiro do céu, em relação a ela. Hoje, relendo o poema, vejo que a caracterização de Irene como uma preta "boa" e "sempre de bom humor", me incomoda.
Penso que, talvez o preço da deferência com que Irene é tratada por São Pedro seja seu "eterno bom humor", isto é, sua falta de reação diante da situação opressiva vivida pelos negros no Brasil. Observo que, depois da morte, Irene trata São Pedro de forma subserviente, como provavelmente tratava os brancos enquanto era viva: "- Licença, meu branco!" Segundo os preceitos do cristianismo, só vão para o céu as pessoas boas que, nesse contexto, seriam aquelas que foram passivas e mantiveram-se no seu devido lugar. Sinto que este poema põe em evidência a imagem do negro conformado.
O certo é que ingressara, em 1976, no Colégio Militar com muita dificuldade em ler, em voz alta, textos escolares, especialmente, os poemas com rima. Durante os sete anos de estudos, meu desafio pessoal foi enfrentar minhas dificuldades leitoras, escritoras, especialmente as ortográficas. Uma saída, em 1978, foi me impor em sala de aula, através da poesia, escrevendo poemas e levando-os à apreciação do meu professor de Português, na época, um major do Exército que, cedo, acolheu-me como “um bom aluno”, apesar dos baixos rendimentos em fluência verbal (havia aula, às quintas-feiras, de expressão oral).
Com o tempo e contando com seu apoio pedagógico, resgatei minha auto-estima e me tornei um bom aluno de língua portuguesa e apontado, mais tarde, por ele, como alguém que, no futuro profissional, teria condições de se tornar docente, hipótese que se tornou realidade quando fiz concurso para professor do Colégio Militar de Fortaleza, em 1991, tendo tirado o primeiro lugar para a vaga de professor de Língua Portuguesa.

Na época de aluno, no Colégio Militar, pensava em seguir a carreira militar. Ir para a Escola Preparatória de Cadetes, em Campinas (SP) e, em seguida, para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). Em 1982, o comandante do CMF e hoje, general reformado, Domingos Miguel Antônio Gazzineo, soube que, sendo filha de lavadeira, não seguiria a carreira militar, e sim, o magistério, argumentou de todas as formas para eu não correr “o risco de passar fome”, como me advertiu. Todavia, a idéia de um regime militar e enclausurado logo me desvanecia e queria ser mesmo professor.
Como na famosa parábola de Jesus, nem sempre as sementes caem em terra sáfara. Segui os velhos conselhos do major e da minha intuição. Tudo que aprendia depois de muitas horas de estudos, repassava para colegas “mais fracos”.
Dava aulas, na condição ainda aluno do ensino fundamental, para alunos que também apresentavam dificuldades de aprendizagem. Assim, senti uma vocação precoce para o magistério de Letras e, nele, em pouco tempo, poderia resolver minhas pequenas questões domésticas, como, por exemplo, ajudar financeiramente minha mãe e poder lhe dar uma tranqüilidade do ponto de vista de cuidados médicos, boa alimentação e moradia.
Desde cedo também me interessei pela leitura literária.
No período de aluno do Colégio Militar de Fortaleza, contando com a colaboração ativa e inteligente do colega de sala de aula (da 6ª série (ou 7º ano) do ensino fundamental) Daniel Hortêncio Medeiros, hoje, advogado e professor de História, em Curitiba, criamos, 1978, na biblioteca do CMF, um clube literário denominado Jovens da Literatura Moderna (JLM), com o objetivo de iniciarmos intercâmbio cultural, troca de idéias e opiniões sobre literatura, com escritores brasileiros.

Lembro-me que o local escolhido para funcionar a sede provisória do grupo foi a biblioteca do Colégio, mas longe dos olhares “tirânicos” do seu Juarez (anos depois, um grande amigo), ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e que não admitia um só ruído nas dependências da Biblioteca. A primeira idéia saiu do Hortêncio: “
Vamos lançar um Manifesto!”. Mas a palavra Manifesto era proibida no Colégio Militar (afinal, vivíamos, no País, em pleno clima de ditadura militar) e aí resolvemos de forma silenciosamente “subvertora” escrever para os escritores brasileiros, numa espécie de apelo à solidariedade dos literatos, contando-lhes de nossa “sociedade secreta”.

Aliás, a idéia de ser, também, escritor ou poeta, no contexto de Colégio Militar, quando não despertava risos dos colegas de sala gerava um clima de desconfiança de nossa virilidade: “poeta é coisa para baitola” ou coisa do tipo “militar só é pra macho”. Mas onde os escritores? E veio uma resposta óbvia: na biblioteca.

E assim procedemos: começamos a investigar de estante a estante os “escritores disponíveis”, isto é, vivos e com endereço para correspondência postal. A primeira foi Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, grande escritora de livros de Literatura Infantil.[1] A partir daí, escrever para os literatos foi um hobby que se transformou interesse acadêmico na fase universitária.

Os primeiros escritores contactados foram Lúcia Pimental de Sampaio Goes (SP) e Ademir Antônio Bacca(RS). Posteriormente, a partir da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental e Ensino Médio, no Colégio Militar de Fortaleza, participamos da diretoria da Associação Literária brigadeiro Sampaio (ALBS), quando, em 1982, chegamos à presidência da entidade que congrega os alunos do CMF.

Depois de um ano freqüentando os saraus literários do Clube dos Poetas Cearenses, fui, em 1981, admitido como sócio-efetivo com novas prerrogativas: poderia recitar meus próprios poemas e ter voz e voto durante as assembléias dos confrades.
Nos anos 70, 80 e 90, escrevi bastante poemas. Participei ativamente, aos sábados à noite, dos saraus literários do Clube dos Poetas Cearenses. Nada, claro, que merecesse publicação em livros, embora, em algumas vezes, tenha recebido prêmios literários. Escrevi poemas como os que seguem abaixo sob o título inédito de Poemas Crepusculares:

MASOQUISMO MATINAL

Uma estranhíssima
ansiedade de tirar a barba,
Cabelinho por cabelinho.
Cortar-me
por uma distração qualquer e
por um vampirismo
ainda mais injustificável
ver o sangue descer.

II– SACO DE PANCADA

Disse-te uma vez:
és Emília, minha boneca de pano.
Digo-te, agora:
és Emília, bruxa insana
que fez do meu coração
um saco de pancadas.

RENDIÇÃO

Percorro o mundo
mas volto a ti
porque é no teu seio
que está meu refúgio.
Contemplo flores
mas é no teu colo
que encontro o mais belo
jardim da vida.
Tudo que escrevo,
tudo que falo,
tudo subjaz ao que faço
mas o que sou é
essencialmente construído por ti.
Eis-me aos teus pés, senhora.
Tua vida me faz homem
mas é o teu amor que me
transforma poeta.


[1] Os "hippies" (no singular, hippie) eram parte do que se convencionou chamar movimento de contracultura dos anos 60 tendo relativa queda de popularidade nos anos 70. Adotavam um modo de vida comunitário ou estilo de vida nômade, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduismo, e/ou as religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana e das economia capitalistas e totalitárias. Eles enxergavam o patriarcalismo, o clientelismo governamental, as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, e os valores sociais tradicionais como parte de um "estabelecimento" único, e que não tinha legitimidade.

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