
PEIA POR UM TRIS OU “SÓ SEI QUE NADA SEI”
Nos anos 80, minha mãe Pedrina me incentivava a me tornar jornalista. Nos 90, descartada a carreira de jornalista, já atuava como professor na área de Letras. Ela me olhava de forma enviesada. Uma vez (1994), sua pensão militar, por conta do falecimento do meu pai, foi retida no Banco do Brasil. Resolveu, então, destemida e confiante, escrever uma carta ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Sugeri um advogado descrente da atenção do Presidente.
Levou uma tarde inteira escrevendo a carta. Depois pediu para eu ler e comentar o texto para ela. Li, reli e, em certa altura, perguntou-me: “ A carta tá boa?”. Respondi de pronto: “Tá, mãe, mas com muitos erros de português”. Retrucou: “Mas dá para o presidente FHC entender que quero que ele libere meu dinheiro hoje mesmo?”. Respondi: “Sim, claro, qualquer pessoa entende sua mensagem”. Aí, ameaçou: “ Então, cabra, não mexa em nada na minha carta. Você sabe ensinar a escrever cartas, mas não é você que vai me ensinar a ser cidadã com minhas próprias palavras. Cale sua boca. Você não sabe de nada”. Ri. Ela, séria, fez gesto de ameaça de peia com as mãos, caso insistisse em corrigir seus erros de Português.
Dez dias depois de ter enviado a carta ao Presidente FHC, recebeu uma ligação telefônica do secretário particular do Presidente, informando que havia atendido ao seu pedido. Dá para imaginar minha cara no chão, meu sorriso desconsertado. Aqui vale o pensamento de Sócrates: “Só sei que nada sei”.
Uma boa lembrança que tenho, na minha memória cultural, é a do início dos anos 80. Na oportunidade, ganhei, da minha mãe, alguns livros de leitura, uma coleção de dicionário da língua portuguesa e uma máquina de datilografia. A partir daí iniciei minha “jornada de escritor”, escrevendo diariamente para mim mesmo e escrevendo cartas para poetas e escritores brasileiros, especialmente os cearenses e, vale salientar, os da Academia Cearense de Letras, uma vez que havia conseguido, com o professor Pedro Paulo Montenegro, na época do Colégio Militar e da Universidade Federal do Ceará(UFC), um exemplar da Revista da Academia Cearense de Letras, com endereço e telefones dos imortais cearenses. Foi nesse período que comecei a contactar escritores cearenses como Nertan Macedo e Eduardo Campos.
Nos anos 90, a partir de 1996, voltei a escrever intensamente, valendo-me dos recursos do editor de texto do computador. Uma vez escrevi e publiquei em um jornal literário; “ Depressão, para mim, é estado lírico”. Sempre que ficava angustiado por algo, seja por questões domésticas ou amorosas, recorreria à poesia. Com o advento da Internet e da sociedade informática, passei a escrever ainda mais, agora, artigos na área educacional, para sites, jornais e revistas educacionais.
A idéia que muitos têm, porém, é a de que o gênero epistolar e a arte de correspondência já estão superados pelas novas tecnologias eletrônicas. Na verdade, a sociedade informática fortalece o intercâmbio através dos recursos on-line de conversação.
Uma boa lembrança que tenho, na minha memória cultural, é a do início dos anos 80. Na oportunidade, ganhei, da minha mãe, alguns livros de leitura, uma coleção de dicionário da língua portuguesa e uma máquina de datilografia. A partir daí iniciei minha “jornada de escritor”, escrevendo diariamente para mim mesmo e escrevendo cartas para poetas e escritores brasileiros, especialmente os cearenses e, vale salientar, os da Academia Cearense de Letras, uma vez que havia conseguido, com o professor Pedro Paulo Montenegro, na época do Colégio Militar e da Universidade Federal do Ceará(UFC), um exemplar da Revista da Academia Cearense de Letras, com endereço e telefones dos imortais cearenses. Foi nesse período que comecei a contactar escritores cearenses como Nertan Macedo e Eduardo Campos.
Nos anos 90, a partir de 1996, voltei a escrever intensamente, valendo-me dos recursos do editor de texto do computador. Uma vez escrevi e publiquei em um jornal literário; “ Depressão, para mim, é estado lírico”. Sempre que ficava angustiado por algo, seja por questões domésticas ou amorosas, recorreria à poesia. Com o advento da Internet e da sociedade informática, passei a escrever ainda mais, agora, artigos na área educacional, para sites, jornais e revistas educacionais.
A idéia que muitos têm, porém, é a de que o gênero epistolar e a arte de correspondência já estão superados pelas novas tecnologias eletrônicas. Na verdade, a sociedade informática fortalece o intercâmbio através dos recursos on-line de conversação.
Como bem assinala Cassiano Nunes, quanto mais a sociedade se moderniza, mais a correspondência se intensifica, se valoriza e se conserva. Daí, dizer-se que a arte de correspondência nasceu do pragmatismo. Em substância, a carta é expressão do diálogo humano.
Mexendo e remexendo nos meus alfarrábios, deparo-me, agora, com as cartas recebidas de escritores e poetas brasileiros. Em 1985, por exemplo, recebi uma carta do poeta José Paulo Moreira da Fonseca[1]. Naquele ano, ainda era estudante do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará(UECE), em Fortaleza. Na carta, datada de 28 de janeiro de 1985, dezoito dias de enviar-lhe minha correspondência, o poeta manifestava interesse em travar diálogo sobre literatura, porque, segundo ele, “este diálogo mantém acesa a alma de nosso país”.
Como, na carta enviada ao poeta não o conhecia e não me sentia à vontade para me dirigir-lhe com pronome de tratamento informal, uma vez que reconhecia um ícone da literatura brasileira, chamei-lhe, no remissão da carta, de “excelentíssimo Sr”, o que foi refutado, de pronto, pelo José Paulo: “ Peço, todavia, que não me chame de “excelência”, nada mais sou que um simples homem, como diria Unamuno, e a excelência autêntica é sermos bem humanos, ilimitadamente humano, o resto pouco importa, são frações decimais”.
Trocar idéias e opiniões com escritores e poetas, no meu caso, sempre foi uma aprendizagem. Como diria o escritor Cassiano Nunes: “A correspondência constitui uma das formas mais legítimas e palpitantes de expressão do humano”. Esta nossa preocupação acadêmica com cartas vem se forjando há mais de duas décadas, resultado de intenso e diligente intercâmbio epistolar com poetas e escritores brasileiros. Desde adolescente o intercâmbio postal me fascina bastante. Cartear também abre (e abriu-me) horizontes.
Quando conheci o escritor cearense Eduardo Campos, em 1982, então Secretário de Cultura do estado, no Governo Gonzaga Mota, recebi como. regalo autografado, o livro “Revelações da condição de vida dos cativos do Ceará” (Fortaleza, SECULT, 1982), em que o autor faz comentários sobre problemas do cativeiro negro no Ceará, com destaque para episódios ou circunstâncias que, de certa forma, segundo ele, caracterizam o relacionamento entre senhores e servos. A obra também faz levantamento do noticio de negros fujões, de 1839 a 1880. Mais recentemente, fazendo estudos sobre a obra Luzia-Homem, do sobralense Domingos Olímpio, deparei-me com a informação de Eduardo Campos o jornal O Sobralense, citado na referida obra, influenciou em muito o vocabulário regional, a descrição da cidade no final do século XIX, fundamentais para o regionalismo naturalista presentes em Luzia-Homem.
Marcou-me muito o contato com o escritor Eduardo Campos. A consciência de que a melhor forma de ingressar no mundo do trabalho é pela via do concurso público ou processo seletivo veio quando, através de uma carta, em 1982, escrevi para o poeta e escritor cearense solicitando emprego no serviço público e recebi um “não” do poeta com a mais providencial justificativa: “(...) Não tenho como abrigar sua inteligência na minha empresa. Nem como remunerá-la. A administração pública, a quem servi com dedicação, falhou-me na única reivindicação que postulei para pessoa de minha família. (...) Participe de quantos concursos aparecerem. E estude. E lute. Não é tempo de depor as luvas. Não sei se o decepciono. Se involuntariamente o faço mais triste, me desculpe. Tenho, em primeiro lugar, compromisso comigo mesmo de ser sincero. Estou convencido de que você vai obter o que deseja. É só questão de paciência e tempo” (14.9.1983)
Em 1981, fui admitido no extinto Clube dos Poetas Cearenses, fundado no dia de 30 de março de 1969 e que funcionou, por muitos anos, na Casa Juvenal Galeno.
Os encontros semanais, sempre aos sábados à noite, renderam-me uma rica e generosa experiência de produzir e declamar poemas meus e de outros poetas. Também foi singular o contato pessoal e semanal poetas e escritores cearenses como Nenzinha Galeno, Moreira Campos, Francisco Carvalho, Horácio Dídimo, Carlos d'Alge, Linhares Filho, Antônio Girão Barroso, Rachel de Queiroz, Airton Monte, Luciano Maia, José Alcides Pinto, Barros Pinho, Márcio Catunda, Barros Alves, Ribeiro Ramos e muitos trovadores cearenses como Fernando Câncio de Araújo e Aloísio Bezerra.
Durante muitos anos, freqüentei a Casa de Juvenal Galeno, no centro de Fortaleza, onde realizadas as reuniões do extinto Clube dos Poetas Cearenses Os saraus literários que animavam as noites da casa eram prestigiados por escritores famosos como Leonardo Mota, Quintino Cunha, Jader de Carvalho, Patativa do Assaré, Rachel de Queiroz, Fernandes Távora, Raimundo Girão, Moreira Campos, Mozart Soriano Albuquerque entre tantos outros.
Em 1983, ingressei no Curso de Letras da UECE e, na militância estudantil, atuei na diretoria cultural do Centro Acadêmico Jáder de Carvalho, oportunidade em que propusemos uma homenagem ao poeta Jáder de Carvalho, até então, já meu amigo, desde meu período de aluno de Colégio Militar
Graças a uma correspondência ativa com escritores de outros estados da Federação, recebemos reiterados convites para participar, como membro correspondente, de entidades literárias. O escritor Humberto Feliciano de Carvalho, de Uruguaiana (RS) me convidou e aceitei de pronto, em 1986, para participar da Academia Internacional de Ciências Humanísticas(admitido em 6/11/1986); Academia Internacional de Letras “3 Fronteiras” (Admitido em 20/07/1986); Clube de Poesia de Uruguaiana (admitido em 9/06/196) e Academia de Letras de Uruguaiana (admitido em 13/04/1986). Além das entidades de Uruguaiana, na década de 80, do século passado, participamos como membro correspondente da Academia Eldoradense de Letras – Casa de Francisca Júlia, de Eldorado(Vale do Ribeira), em SP, a convite de João Albano Mendes da Silva.
Dois diplomas, entre os recebidos como membro correspondente de entidades culturais e literárias, afiguram-se de grande relevo pessoal, ambos de 1987: o da Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni (admitido em 20/05/1987), a convite do poeta César Olímpio Ribeiro Magalhães (RJ) e para compor o quadro de associado do Centro de Letras do Paraná(admitido em 19/12/1987), por indicação do poeta e amigo João Manoel Simões.
[1] O poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, 1922 e faleceu na mesma cidade 2004).Foi um jurista, filósofo, poeta, ensaista, teatrólogo e pintor brasileiro.Formou-se em Direito em 1945 e em Filosofia em 1948. É considerado pela crítica literária como um maiores poetas de sua geração, tendo sido indicado várias vezes para a Academia Brasileira de Letras, entretanto sem sucesso. Escreveu diversos livros de direito, filosofia, poesia e crítica de arte. A crítica de arte nacional e internacional tem reconhecido o valor de sua pintura e por isso mesmo.

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